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São Paulo, 11 de julho, 2008 ? Com uma série de vantagens como a afinidade cultural e a posição geográfica, o Brasil tem grande potencial para se tornar o segundo fornecedor offshore de serviços de Tecnologia da Informação (TI) do mundo, ou até o primeiro em algumas áreas, de acordo com Frances Karamouzis, Vice-Presidente de pesquisa do Grupo Gartner. Alguns fatores como a redução de impostos para o setor e a renovação da BRASSCOM são extremamente positivos. Mas a janela de oportunidade se fechará em dois ou três anos. Portanto, ainda há muito trabalho a fazer, diz Karamouzis, em entrevista exclusiva concedida às repórteres Priscilla Murphy e Thaís Trapp, da BRASSCOM News, na primeira semana de julho.
BRASSCOM News ? O que o Brasil está fazendo corretamente para atingir sua meta de tornar-se uma potência em TI?
Frances Karamouzis ? Basicamente, o posicionamento Brasileiro é ótimo. A taxa de crescimento do mercado é superior a 41% e o Brasil possui uma parte pequena disto, equivalente a cerca de US$ 1 bilhão. A liderança fortalecida da BRASSCOM é um indicador positivo, bem como a recente política que reduz os encargos tributários para a exportação de serviços e a congregação de várias empresas. Os grupos são mais fortes e o crescimento coletivo é muito bom, assim como o fato de que serão convidativos e acessíveis a fornecedores internacionais, como os indianos e as companhias multinacionais que querem estabelecer presença aqui. Tanto os fornecedores internacionais, quanto os nacionais criam empregos. É um nível saudável do que chamamos ?coopetition?. De certa forma, é bom para todos e obriga os fornecedores locais a elevarem seus padrões, além de melhorarem sua qualidade para competir em nível global.
BN ? E o que o País está fazendo de errado?
Frances ? Eu acredito que a meta da BRASSCOM de exportar US$ 5 bilhões até 2011 é extremamente baixa e muito conservadora. A taxa de crescimento para offshore outsourcing é tão alta que deveriam definir metas muito maiores e adotar uma postura muito mais agressiva. Além do mais, o Brasil faz parte dos BRICs: Brasil, Rússia, Índia e China. Já que a Índia está estabelecida, agora a disputa será entre Brasil, Rússia e China. Nós avaliamos os três. A Rússia não vai estar no jogo, por isso a concorrência fica entre a China e o Brasil. O Brasil tem muito mais vantagens: uma afinidade cultural maior, uma maneira mais ocidental de fazer negócios e especificar protocolos, além de estar no mesmo fuso horário. O País tem vários benefícios, por isso já larga na frente. Mesmo que o domínio dos brasileiros no idioma inglês precise melhorar bastante, é ainda muito melhor que o dos chineses. No entanto, a China investe dez vezes mais que o Brasil no desenvolvimento da indústria de TI. Em menos de três anos o governo chinês criou 18 parques tecnológicos em 11 cidades, com os melhores e mais novos equipamentos e instalações de telecomunicações. O país também oferece aos fornecedores dois anos gratuitos de infra-estrutura imobiliária. O Brasil, entretanto, não chega perto de fazer o mesmo investimento, por isso, tem uma janela de oportunidade limitada, de aproximadamente dois a três anos, pois se a China ganhar velocidade será difícil detê-la. Esta é, definitivamente, uma área importante à qual o Brasil deve estar atento.
BN ? Então falta investimento público por parte do Brasil?
Frances ? Parte do problema é falta de investimento público, parte é falta de promoção e parte é falta de branding. A maior falha que encontramos é o fato de não existir um tema comum uniforme sobre o Brasil na mente dos compradores. Se eu perguntar a dez pessoas o que acham da tecnologia indiana, elas responderão rapidamente com dois ou três itens, de maneira uniforme. Mas se eu perguntar sobre TI no Brasil, a resposta é basicamente uma folha em branco. Não há um conceito comum sobre a marca, sobre a promessa do País em TI. Então cabe à BRASSCOM e aos fornecedores definir de três a cinco coisas pelas quais querem ser lembrados em TI. Definitivamente, quando você se refere ao setor da Índia, as pessoas mencionam preços baixos. Quando você diz TI do Brasil, o ideal seria que a resposta fosse alta qualidade ou experiência em serviços financeiros, ou SAP. Mas deve estar muito claro o que cada um desses itens significa. Qualquer pessoa que trabalhe na indústria de TI viaja por todo o mundo e pode servir como uma espécie de ?embaixador da mensagem?, mostrando que é preciso muito mais do que fazer propaganda em revistas de negócios. É preciso incorporar o mantra, viver a mensagem. E isso deve ser definido rapidamente.
BN ? Quais são as outras falhas?
Frances ? São necessários programas abrangentes para aumentar a habilidade no idioma inglês. Existem medidas paliativas para amenizar o problema, mas a solução definitiva depende do Governo. No curto prazo, os fornecedores estão investindo bastante, contratando professores de inglês, pagando por programas de capacitação e fazendo o que for preciso para que seus clientes possam contar com os funcionários certos hoje e nos próximos seis meses. Mas na China, por exemplo, implantou-se um programa há cinco ou seis anos, para que todas as crianças desde a terceira série tenham aulas de inglês. Eles vão criar uma geração que terá algum domínio do idioma. Vai levar de 10 a 15 anos para essas crianças se formarem na escola, mas isso significa que o Brasil já está atrasado. Aqui, aulas de inglês custam até 75% de um salário médio, de modo que somente os filhos de pessoas das classes média e alta irão aprender inglês. A maioria da população ? a classe média baixa e a grandes massas ? irá crescer sem conhecer a língua. O Governo deve criar programas para fomentar o aprendizado. De outra forma, cada fornecedor estará em desvantagem, com uma estrutura de custos que é milhões de dólares mais cara, porque terá que pagar a diferença. Na Índia, nenhum fornecedor tem este custo. Todos saem da escola falando inglês.
BN ? O que mais aumenta a carga para companhias brasileiras?
Frances ? Os impostos. São Paulo tem o nível mais alto de capacitação, mas também é o lugar mais caro de se operar uma empresa. Por exemplo, nos últimos 15 anos, todas as grandes companhias indianas ? Tata, Infosys, Wipro e Satyam ? estiveram isentas de impostos corporativos. Não há impostos corporativos para companhias de TI na Índia, enquanto nos EUA os impostos são de 30% a 50%. No Brasil isso significaria um sacrifício pequeno para o Governo. Existem somente 50 grandes companhias nesta categoria que ficariam isentas de impostos. O custo incremental para o Governo brasileiro seria mínimo. Essas coisas realmente despertam a economia de uma indústria. O Governo tem que encontrar maneiras inteligentes e criativas para promover mudanças dramáticas na indústria em um curto prazo. Esta é uma área importante para o Brasil. É necessário que isso se torne política. Deve-se realmente dar atenção a isso. No ano passado, por exemplo, o Presidente do Brasil foi à Índia e levou junto pessoas da indústria petrolífera, de aço, entre outras. Não havia uma única pessoa da indústria de software ou de companhias de outsourcing. Foi um sinal claro de que os trabalhadores nas áreas de software, serviços e conhecimento não são importantes para o Brasil. Isto é uma péssima mensagem. Fiquei chocada. Ele nem sequer visitou as maiores companhias de software e serviços, que geraram 1,5 milhão de empregos na Índia. O Brasil precisa deixar bem claro que TI é uma prioridade. E isso não está claro hoje.
BN ? O mundo está procurando uma alternativa para TI da Índia?
Frances ? No Gartner, acompanhamos as 100 maiores companhias que compram serviços offshore pelo menos uma ou duas vezes por ano. Das dez maiores companhias com despesas offshore, três afirmam desde 2007 que não querem enviar novos trabalhos para a Índia. Elas querem analisar alternativas em outros países para diversificar seus riscos. A Índia continua sendo importante, mas não querem mais crescer lá. Qual é a segunda opção, depois da Índia? Basicamente nossos clientes estão dizendo: ?Diga-nos qual é a segunda opção.? Esta história não está definida. É uma grande oportunidade para o Brasil ser a segunda opção e talvez até a primeira em categorias nas quais deseja se diferenciar. Mas o País não está se esforçando para ser a segunda opção. Há alguns países concorrendo pelo segundo lugar: China, Filipinas, México, Brasil e provavelmente uma combinação de países do Leste Europeu, como República Checa, Polônia e Hungria, seguidas de perto pela Romênia. De todas estas opções, a que tem a maior população, a maior capacitação de força de trabalho e a maior base de clientes em potencial é o Brasil. A economia brasileira é grande em serviços financeiros, manufatura, petróleo e gás. Também é um lugar interessante porque muitas das companhias multinacionais já conhecem as práticas de negócios no País.
BN ? Como a política brasileira se compara com a dos outros países?
Frances ? O México está mais avançado que o Brasil em relação ao foco do Governo e da ?Mexico-IT?, organização equivalente à BRASSCOM. Eles são muito mais agressivos do que o Brasil, mesmo sendo muito menores. Eles têm outros obstáculos, mas progrediram muito nos últimos dois ou três anos. Por exemplo, as seis maiores companhias indianas já estão no México. Enquanto somente a Satyam e a Tata estão no Brasil. Até mesmo o segundo escalão dos fornecedores indianos, como Genpact, Hexaware e MindTree, já abriu escritórios no México. Por que não estão vindo para o Brasil? É um pouco mais difícil estabelecer negócios aqui. Não é fácil contratar pessoas, porque o custo de despedi-las é muito alto. Existem poucos incentivos governamentais para se estabelecer aqui. Para o Brasil há poucas informações disponíveis. Deveria ser fácil encontrar informações sobre o número de formandos, os nomes das companhias, seus portes e tipo de clientes. Esse é só o primeiro passo no processo. E quando estas companhias quiserem vir para o Brasil, devem ser recebidas ao descer do avião e receber explicações sobre os benefícios da cultura, os benefícios da força de trabalho e como é fácil constituir negócios aqui. No passado, quando você descia do avião na Índia não ficava sozinho nem por um minuto. Eles explicavam tudo para você compreender a cultura, a força de trabalho, a disponibilidade de infra-estrutura, a estrutura imobiliária, a estrutura de telecomunicações e de software. Enfim, tudo. Mas isso dá trabalho.
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